31 de mai de 2012

O paradigma da inclusão na prática pedagógica

RAMOS, Paulo. Educação Inclusiva: histórias que (des) encantam a educação. 3. ed. Blumenau: Odorizzi, 2012.

            Realizamos uma resenha do livro “Educação Inclusiva: histórias que (des) encantam a educação”. Os conceitos discutidos pelo autor Paulo Ramos são essenciais para o entendimento do processo de inclusão e as suas implicações na sociedade e no espaço escolar. Nesse contexto, a atuação do professor é fundamental para desenvolver culturas inclusivas por meio da educação, e na reestruturação da prática pedagógica na sala de aula com o aluno que apresenta necessidades educativas especiais numa perspectiva metadisciplinar.
            O objetivo desse livro é que ao lê-lo o leitor reflita a importância das atividades metadisciplinares na escola para o acesso e sucesso dos alunos no processo de ensino e de aprendizagem com vistas à inclusão escolar.
            O autor inicia a sua obra abordando a exclusão nas escolas refletindo sobre as principais dificuldades que o aluno com necessidades educativas especiais encontra sob a forma de preconceitos, rótulos depreciativos e estigmas por parte dos colegas e demais pessoas.
            Ao tratar o tema da inclusão, Ramos esclarece o que seria a inclusão na educação e a inclusão da educação: “a inclusão na educação tem a ver com o que já existe há muito tempo e que sustenta o modelo organizacional da integração escolar na qual o aluno tem de se adequar ao ensino regular para poder cursá-lo e o estigma do ensino especial vai lhe servir para isso” (2012, p. 12).
            Já, o que define a inclusão da educação não é, segundo o autor, a dicotomização e a fragmentação dos sistemas escolares em modalidades diferentes, “mas a capacidade de a escola atender as diferenças nas salas de aula sem discriminar, sem trabalhar à parte com alguns, sem estabelecer regras específicas para se planejar, para aprender, para avaliar” (2012, p. 12).
              Em sua obra, Ramos resgata o histórico das políticas e legislação para a inclusão educacional passando por momentos importantes como a promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos no Brasil (1948), as LDBs (4.024/61; 5.692/71; 9.394/96), Declaração Mundial sobre a Educação para Todos (1990), o Estatuto da Criança e do Adolescente (8.069/90), a Declaração de Salamanca (1990) documentos que acabaram por defender e instituir a inclusão de todos os alunos com necessidades educativas especiais em escolas regulares.
            A partir das discussões e encaminhamentos das questões da inclusão escolar muitas medidas foram tomadas pelo poder publico, municípios e escolas a fim de garantir o acesso e a permanência dessas crianças nas escolas. Ramos esclarece que o conceito de inclusão ultrapassa e muito o de integração, porque o seu foco não é apenas inserir o aluno especial em um espaço com as demais crianças, mas, de fato, desenvolver ações de acolhimento para que esse aluno faça parte do processo educativo como um ser ativo e dinâmico e que sejam respeitadas suas características e possibilidades de aprendizagem. A inclusão é uma questão de equidade social e igualdade de direitos.
            O autor lembra que a escola ainda poderá contar com serviços de apoio pedagógicos especializados, sob a forma de sala de recursos, seja de professores de apoio, conforme preveem as Diretrizes Nacionais para a educação Especial. Esse apoio pode se traduzir num trabalho de complementação curricular, com o desenvolvimento de atividades específicas segundo as particularidades de cada aluno, na adequação de objetivos e planejamentos, bem como no espaço e materiais utilizados pelo professor.

Embora as necessidades educacionais sejam amplas e diversificadas, a atual política nacional de educação (PNEE) aponta para a definição de prioridades no que se refere ao atendimento especializado a ser oferecido na escola para quem dele necessitar. [...] Define como aluno portador de necessidades educativas especiais aquele que, por apresentar necessidades próprias e diferentes dos demais alunos no domínio das aprendizagens curriculares correspondentes a sua idade, requer recursos pedagógicos e metodológicos educacionais específicos. (RAMOS 2012, p. 35).

A classificação desses alunos, para efeito de prioridade de atendimento educacional especializado, que consta na PNEE, conforme elencado por Ramos (2012) é: Deficiência mental, visual, auditiva, física, múltiplas; Condutas típicas; e Superdotação.
A terminologia “necessidades educativas especiais” surgiu nesse contexto para “evitar os efeitos negativos de expressões utilizadas no contexto educacional. Além disso, foi uma forma de reconhecer que muitos alunos, sejam ou não portadores de deficiências ou superdotação, apresentam necessidades educacionais especiais quando exigem respostas específicas adequadas” (RAMOS, 2012, p. 35). Paulo Ramos, apesar de reconhecer o avanço conceitual citado, sugere outra terminologia “HABILIDADES EDUCATIVAS ESPECIAIS”. Por entender que todos os seres humanos possuem habilidades específicas e necessitam de acesso aos recursos e equipamentos necessários ao processo de desenvolvimento e aprendizagem.
Segundo o autor, “a inclusão em sala de aula, e na escola em geral, deve favorecer o intercâmbio e a valorização do pluralismo e da diferença” (2012, p. 35). Desse modo o processo de inclusão tem como um dos princípios o da coletividade.
Ao abordar os desafios que o processo de inclusão implica Ramos (2012) aponta a Adequação dos espaços físicos da escola; O trabalho com a diversidade; Adequação curricular – significativas, que envolvem instâncias superiores e equipe diretiva da escola e busca reestruturá-la como um todo e, não significativas, são as adaptações que o professor pode fazer no seu cotidiano em sala de aula e envolve ajustamento do espaço e materiais, mudança de objetivos, avaliação, etc.; Atendimento educacional adequado – conhecer o aluno e as suas necessidades, realizar intervenções adequadas, etc.; Autonomia social e intelectual – possibilitar que o aluno adquira gradativamente a sua autonomia nos estudos e nas relações sociais; e a noção de igualdade que começa a dar sinais de estar obsoleto e precisa ser continuamente revisto e realimentado.
Segundo Coll (1995 p. 307), “[...] a escola tem que flexibilizar para que possa acolher uma diversidade de alunos com diferentes interesses motivações e capacidade de aprender”. Ou seja, “o conjunto das características de aprendizagem deve ser criteriosa e profundamente estudada, a fim de adequar o ensino às suas capacidades potenciais”. (FONSECA, 1995, p. 203).
Isso nos leva e refletir sobre a necessidade do professor dispor de uma série de estratégias organizativas e metodológicas em sala de aula. “Estratégias capazes de guiar sua intervenção em processos reflexivos que facilitem a construção de uma escola onde se favoreça a aprendizagem dos alunos com reinterpretação do conhecimento e não como mera transmissão de cultura” (RAMOS 2012, p. 39).
Para colaborar com essa nova perspectiva o autor nos apresenta a metadisciplinaridade como uma estratégia nas mãos do professor, como princípio organizador dos conhecimentos.

A visão pedagógica metadisciplinar – tomada como entendimento teórico-prático acerca dos alunos com dificuldades de aprendizagem, de classe especial, ou talentos e sua inclusão no cotidiano escolar das classes ‘consideradas normais’ – exige uma nova postura do professor que, uma vez aceitando-se metadisciplinar, terá por novo itinerário profissional libertar-se da visão unidirecional, ‘avançar no campo do outro’, ultrapassar as fronteiras que lhes oferece a abordagem disciplinar. (BRASIL apud RAMOS, 2012, p. 41).

Entendida dessa maneira a metadisciplinaridade “requer dos professores uma atitude ou conduta interdisciplinar, caracterizada pelo desafio da sua realidade, sempre em busca da ousadia e originalidade inerente ao inovador, ao novo”. (RAMOS 2012, p. 41). Nesse contexto, a metadisciplinaridade passa a ser o eixo que integra as disciplinas e possibilita gerar projetos que se encaixam na medida em que o trabalho possibilite o recriar e o repensar que transcende os conteúdos escolares potencializando as capacidades e as habilidades dos alunos.
O autor também concebe a prática pedagógica inclusiva na metadisciplinaridade, onde essa se apresenta como uma alternativa à identificação das dificuldades encontradas pelos professores ao trabalhar com alunos especiais. Dito de outra maneira, Ramos (2012, p. 44), entende que “a inclusão requer um currículo mais metadisciplinar, buscando cada vez mais a democratização do saber, a garantia dos direitos humanos e as oportunidades iguais aos diferentes, visando o exercício da cidadania”.
Então cabe destacar que a inclusão não é um modismo, muito menos uma questão de terminologia. Mas, sim, é a “expressão linguística e física de um processo histórico e social que não se iniciou e nem terminará hoje; no entanto, tem estado cada vez mais presente na vida das pessoas”. (RAMOS, 2012, p. 45).
A metadisciplinaridade na educação inclusiva, como nos esclarece o autor, possui uma importante tarefa junto à sociedade: “abrir caminhos para a construção de uma educação comprometida e responsável por profundas mudanças de atitudes na busca de uma inclusão real e efetiva” (2012, p.46).
Ramos conclui a sua obra trazendo um capítulo dedicado às histórias que (des) encantam a educação: “Um ser humano uma inesquecível história”, “Histórias de Jorge”, “Algumas histórias”: Cicatrizes; Unidade na diversidade; O profissional mais importante da sociedade; Sou um professor; Eu queria ser uma TV...; O ensinamento do lápis; Gaiolas e asas; As sete novas maravilhas do mundo; Urubus e Sabiás; Os desafios de uma viagem; O valor de um ser humano; O silêncio de uma aula; A rosa e o sapo; O que você é: cenoura, ovo ou café; A ausente presença. A obra do autor é magnífica, vale a pena conferir.
Ao realizar essa resenha pude perceber o quanto é importante ao professor desenvolver uma atitude inclusiva no acolhimento e na prática pedagógica de alunos que apresentam necessidades educativas especiais. A metadisciplinaridade vem contribuir para a organização dos conhecimentos do professor, onde o mesmo precisa ampliar seu leque de saber, a fim de compreender como ocorrem os processos educativos que a inclusão implica atualmente. E isso não diz respeito somente à adequação curricular, espacial, temporal e material em sala de aula, vai muito além, envolve também a relação do professor com esse aluno e da sua atitude de encorajamento, propiciando a aprendizagem e a interação dessa criança com os seus pares. Gostei do livro é uma leitura agradável e instrutiva.


M. Biasi
São Francisco do Sul/SC - 2012  
Coautoras:
A. D. Passos
E. A. Felipe
G. S. M. Oliveira

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