31 de mai de 2012

O Ensino de Português e da Língua Materna

Por: M. Biasi

A geração atual, fala e escreve diferente da geração anterior. Seja pela demanda tecnológica (e por sua linguagem própria), seja pela pluralidade de linguagens existentes, seja pelas “diferenças” apresentadas por uma mesma língua na comunicação entre as pessoas em razão de seu contexto cultural. Portanto, a alfabetização (inserida em uma pratica de letramento) e o ensino da língua portuguesa implicam em contextualização, em que, “por meio de práticas sociais de leitura e escrita na sala de aula, o aluno é apresentado à língua de seu país como instrumento social que pode ajudá-lo a viver melhor” (VALLE, 2007, p.80). Com relação a isso, os PCNs: língua portuguesa observa,

O domínio da língua tem estreita relação com a possibilidade de plena participação social, pois é por meio dela que o homem se comunica, tem acesso à informação, expressa e defende pontos de vista, partilha ou constrói visões de mundo, produz conhecimentos. Assim, um projeto educativo comprometido com a democratização social e cultural atribui à escola a função e à responsabilidade de garantir a todos os alunos os acessos aos saberes linguísticos necessários para o exercício da cidadania, direito inalienável de todos. (BRASIL, 1997, p.21).

A aquisição da linguagem é uma subárea dos estudos linguísticos, mais especificamente, da psicologia; esta por sua vez "é o campo da linguística que se preocupa com as questões relacionadas ao processamento e a aprendizagem de línguas” (GOMES, 2007, p.26).
Muitas têm sido as discussões sobre a capacidade do ser humano de se comunicar através da língua. É claro que, se tratarmos a língua em seu sentido amplo, veremos que os animais e até mesmo os computadores podem se comunicar por meio da linguagem, uma linguagem própria a eles. Porém, somente o ser humano possui a capacidade de verbalizar sua linguagem, a fala. “o que faz a nossa comunicação ainda mais impressionante é a nossa habilidade de ler e escrever, tornando possível a ligação entre tempos, espaços e relacionamento” (PINKER, 2000. p.2).
Existem muitas teorias que tentam explicar a aquisição da linguagem por parte da criança. De todas essas teorias, vamos mencionar quatro correntes e as teorias a eles ligados: o bahavionismo, o inatismo, o cognitivismo e o sociointeracionismo.

A natureza versus o ambiente, o inato versos o adquirido, o biológico versus o social são temos que vem sendo, há muito tempo, discutidos pelos estudiosos da linguagem. A discussão se baseia nas duas formas de pensar a aquisição da linguagem. Uma entende que a linguagem é uma dotação genética do ser humano, e outra, que é um processo que se adquire através do contato com o ambiente. Cada corrente de pensamento, radical ou levemente, tenderá para uma das duas formas de pensamentos. (Gomes, 2007, p.27).

Para o bahavionismo, de Skinner, a aquisição da linguagem ocorre por meio de estimulo / resposta. O estimulo recebido pelo ambiente pela criança vai, por meio de premiação ou castigo, produzir a formação de hábitos, como andar de bicicleta, por exemplo. Já para o inatismo de Chomsky, a linguagem é inata e superior a qualquer outra habilidade humana. O meio só serve para oferecer a criança o impulso linguístico, o “desabrochar” do que ela já possui em termos de conhecimentos linguísticos. No cognitivismo de Piaget, o ser humano possui a capacidade genética de adquiri conhecimento. A linguagem seria então, mais um dos diversos conhecimentos que ela desenvolve. Em contra mão a todos vem o interacionalismo de Vygotsky, que também não considera a linguagem superior às demais capacidades humanas, porém defende que o desenvolvimento da linguagem, como as demais capacidades, dá-se através da interação da criança com os adultos (GOMES. 2007).
Outro fator importante na teoria de Vygotsky, essencial, é a importância dada aos fatores socioculturais no desenvolvimento da criança. Se analisarmos a caracterização da área da língua portuguesa nos PCNs, encontraremos: “a língua é um sistema de signos histórico e social (…), assim aprendê-la é aprender não só as palavras, mas também, os seus significados culturais e, com eles, os modos pelos quais as pessoas de seu meio social entendem e interpretam as realidades e a si mesmas” (BRASIL, 1997, p.22).
Portanto, precisamos compreender o que constitui a linguística e seus campos de estudo. Segundo Cagliari (2002, p.42), linguística “é a parte da semiótica (estudo cientifico da linguística) voltada para a explicação de como a linguagem humana funciona e de como são as línguas em particular”. Pela diversidade da linguagem tanto no aspecto estrutural, quanto nos usos que se fazem dela, existe varias formas de estudá-la:

Fonética: estuda os sons da fala, preocupando – se com os mecanismos de produção e audição; Fonologia: estuda toda a estrutura sonora da língua, seus seguimentos consonantais e vocálicos, estrutura silábica acentuação, ritmo entonação etc.; Morfologia: estuda as regras de combinação entre os morfemas formando unidades maiores; Sintaxe; contém as regras de combinação das palavras para a formação de sentenças na língua; Semântica: preocupa – se em determinar o significado intrínseco de palavras e sentenças e estuda as relações entre as formas linguísticas e as coisas no mundo; Pragmática: volta-se para o que se faz com linguagem, em que circunstância e com que finalidade: linguística textual e seus elementos de analises: coesão, coerência, intertextualidade e outros; Analise de discurso: busca compreender o que está envolvido no texto, oral e escrito, e o que faz pessoas diferentes produzirem textos diferentes: Neurolinguistica: preocupa – se com as relações entre a linguagem e o cérebro: Psicolinguística: visa compreender os processos mentais relacionados com a produção da linguagem; Sociolinguística: trata a língua e as suas variedades, descrevendo os fatos linguísticos, sem avaliação do que e certo ou errado (GOMES, 2007, p.37- 40 grifo nosso).

O grande desafio do professor de língua materna é ensinar uma língua já conhecida e dominada pelos alunos. Pois, eles chegam à escola com um vocabulário próprio até então suficiente para expressar as suas necessidades, traz consigo toda uma experiência linguística adquirida no seu cotidiano e já utiliza as regras próprias do dialeto de sua comunidade. As pessoas falam de acordo com o seu grupo social, com o nível de escolaridade que possuem, com a faixa etária que se inserem, com o gênero com que se identificam e com a época histórica em que vivem. Portanto, “as pessoas falam de acordo com as suas identidades sociais. Isso nos leva a óbvia conclusão de que em língua não existe certo ou errado, mas sim ‘diferenças’” (HARTMANN; SANTAROSA, 2010, p.27).
Aos professores cabe a responsabilidade de, respeitando a língua já adquirida, levar os alunos a conhecer as diversas possibilidades do uso da língua, em suas mais variadas vertentes. Segundo Cagliari (2002, p.28)

O objetivo mais geral do ensino do português para todas as séries da escola é mostrar como funciona a linguagem humana, e de modo particular, o português: quais os usos que tem e como os alunos devem fazer para estenderem ao máximo, ou abrangendo metas especificas, esses usos na modalidade escrita e oral, em diferentes situações de vida.

O novo conceito é o do ensino da língua para o letramento com vista à inclusão social, através de praticas de linguagem que se insiram no contexto de sua realidade social e cultural. “através de apresentação aos alunos de diversos gêneros textuais, falados, escritos, e práticas de reflexão sobre a linguagem em seus elementos estruturais e discursivos, o professor estará contribuindo para a formação de um cidadão” (BRASIL, 1997, p.28).
A primeira experiência da criança se faz pela audição, sendo assim, a atividade de compreensão oral que se deve praticar na escola deve ser a atividade de escutar, para aprender com os outros. “Sê se pode aprender a escutar, pode – se aprender a falar corretamente. Mas falar corretamente não significa usar as regras gramaticais da língua padrão (…) mas desenvolvendo dois outros processos: a leitura e a escrita” (GOMES, 2007, p.108).

O engajamento do leitor no processo de leitura depende em larga escala de seu relacionamento com o mundo da escrita e de como essa atividade linguística se reflete na sua vida (…). A escrita como prática social vai exigir um processo constante de monitoramento de intensa relação entre escritor e assunto, além da preocupação com o leitor (…). O texto é visto como uma unidade mais abrangente que uma sequencia de enunciados que precisa refletir a intencionalidade, aceitabilidade, informatividade, situacionalidade e intertextualidade. Além de mostrar-se coeso e coerente. (GOMES, 2007, p.112-127).

O trabalho com a oralidade no ambiente escolar supõe um profundo respeito pelas formas de expressão trazidas pelos alunos de suas comunidades, e um grande empenho por ensinar ao aluno o exercício da adequação aos contextos comunicativos, diante de diferentes interlocutores, a partir de intenções de natureza diversa (BRASIL, 1997). Assim, propõe-se que o ensino da língua portuguesa seja desenvolvido através de atividades em grupo (dialogo, entrevista, reunião, discussão, estudo de casos, exposição – participação etc.), para discussões e resoluções de problemas; atividades variadas de exposição oral, como descrição, narração e analise de situações.
O importante é levar o aluno a contextualizar o que escuta de fala, refletir sobre o que lê e escreve ao se inserir no âmbito social. Compreender as intenções do enunciado que produz e, se necessário, reescrevê-lo.

Referências:


 BRASIL. Secretaria de Ensino Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: língua Portuguesa. Brasília: MEC, 1997.

CAGLIARI, L. C. Alfabetização e Linguística. São Paulo: Scipione, 2002.

GOMES, M. L. Metodologia da Língua Portuguesa. Curitiba: IBPEX, 2007.

HARTMANN, S; SANTAROSA, S. Práticas de Escrita Para o Letramento no Ensino Superior. Curitiba: IBPEX, 2010.

PINKER, S. The Language Instinct: How the mind creates language. New York: Perennial, 2000.

VALLE, L. L. D. Metodologia da Alfabetização. Curitiba: IBPEX, 2007.



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