4 de jun de 2012

A Filosofia na Educação Escolar

Por: M. Biasi

A filosofia não é privilégio somente de filosofos e professores de filosofia, e sim de todos aqueles que buscam na filosofia respostas para seus porquês. Toda vez que questionamos “como” e o “porquê” de nossos pensamentos e ações estamos de certo modo filosofando. Por isso, podemos dizer que “a filosofia, como pensamento que busca pensar a experiencia humana de modo distinto do pensamento mitico, surgiu primeiramente entre os antigos gregos” (VASCONCELOS, 2011, p. 23).

Podemos identificar na Grécia Antiga uma reorientação da filosofia, especialmente em Atenas, onde os filosofos gregos antigos passam a se interessar por questões éticas e politicas e epistemológicas. Nesse último campo, de implicações importantes para a filosofia da educação, podemos destacar as figuras de Platão e Aristótoles. Para o primeiro, o conhecimento é derivado do reconhecimento, no mundo material, das ideias primordiais existentes em uma esfera separada e superior a nossa. Para Aristótoles, por outro lado, o conhecimento do universal se faz por meio da abstração, isto é, do conhecimento das essências das próprias coisas. No periodo Medieval, as especulações sobre o conhecimento encontra-se subordinado á fé cristã, (...) o estudo de filósofos antigos, nesse sentido, justifica-se na medida em que não se contrariassem as verdades da fé. A teoria do conhecim,ento do mundo moderno procura resgatar a legitimidade da razão que os medievais haviam colocado sob suspeita. Nesse sentido, a filosofia moderna se constitui a partir de uma crítica que a razão faz de sí mesma. As principais correntes de pensamento do mundo moderno foram o racionalismo e o empirismo – o primeiro afirmava a primazia da razão e o segundo a primazia da experiência para o conhecimento humano. Immanuel Kant (...) buscou uma sintese dessas correntes, afirmando que o conhecimento provém de uma ação combinada do sujeito e do objeto. (VASCONCELOS, 2011, p.39-40).

     O naturalismo é uma corrente filosófica que diferencia a natureza e a civilização, entendendo o segundo como uma degeneração do primeiro. A perspectiva naturalista seria um retorno do ser humano a uma condição original, ou seja, a pureza da natureza.  O naturalismo deriva do iluminismo, cujo autor mais importante é Voltaire, para quem a “educação deveria superar o modelo livresco adotado pela nobreza, colocando a razão acima da tradição.” (VASCONCELOS, 2011, p. 60).
         Dentre os filósofos naturalistas, o mais importante é Jean-Jacques Rousseau. Para esse pensador “o ser humano é bom por natureza, mas a sociedade o corrompe.” O autor imagina uma “condição primitiva da humanidade, o estado de natureza, que cedeu lugar ao estado de civilização, uma condição na qual predomina a maldade e a dissimulação” (VASCONCELOS, 2011, p. 60).
        A principal obra pedagógica de Rousseau, Emílio, conta a história fictícia de um menino educado longe da civilização, de modo a preservar a bondade natural e seu caráter. O autor recebeu severas críticas à sua obra, mas o próprio Rousseau frisava que o objetivo da obra era estimular a imaginação dos leitores e não oferecer conselhos práticos em educação. Nesse sentido ele obteve sucesso, pois seu pensamento influenciou de forma significativa o pensamento pedagógico moderno.
       O positivismo é uma corrente filosófica do século XIX e visava a aplicação dos métodos das ciências naturais (observação, experimentação e inferência) para o estudo das sociedades humanas. Augusto Comte foi o pioneiro do pensamento positivista e via a sociedade em um processo evolutivo, que passava por três estágios – o religioso, o metafísico e o positivo – regido por duas leis: a estática e as dinâmicas sociais. (VASCONCELOS, 2011).
        Outro positivista importante foi Herbert Spencer, que como Comte, seguia uma orientação empirista. No campo pedagógico Spencer propõe “um currículo escolar diferenciado, enfatizando as disciplinas mais diretamente importantes á atividade industrial, como a Matemática ou Física, em detrimento de disciplinas de caráter humanista, como o Grego ou o Latim” (VASCONCELOS, 2011, p.35).
       No campo da sociologia o positivismo influenciou o pensamento de Émile Durkheim que defende o papel da educação com o fim de garantir a integração do individuo na sociedade. Nessa perspectiva, o autor apresenta um pensamento tipicamente conservador, pois o conflito é visto como uma patologia social.

O materialismo dialético é uma filosofia baseada nos escritos de dois pensadores: Karl Marx e Friedrich Engels. Para eles, a história se desenvolve de forma dialética, isto é, em um movimento de tese/antítese/síntese, configurada em uma contínua luta de classes. [...] A educação ganha destaque no ideário do materialismo dialético na medida em que Marx e Engels postulam a necessidade de uma educação proletária como modo de formação da consciência crítica e da supressão da ideologia burguesa. Nos debates entre marxistas contemporâneos, uma das questões mais controversas diz respeito ao papel da escola. Para Louis Althusser, representante da corrente crítico-reprodutivista, a escola é e sempre será local de doutrinação da burguesia, devendo ser extinta do processo de emancipação social da classe trabalhadora. Porém, de acordo com Demerval Saviani, a escola pode se tornar local de formação de consciência crítica, não devendo ser extinta, e sim transformada. (VASCONCELOS, 2011, p. 107-108).

       A fenomenologia (Edmund Husserl) surge a partir da crítica ao psicologismo e sua linha filosófica nega a possibilidade de um conhecimento objetivo, uma vez que os atos mentais são sempre subjetivos. Husserl desenvolveu um método de análise que visa alcançar um conhecimento objetivo com base na descrição dos conteúdos da vivência resgatando o conceito medieval de intencionalidade do intelecto. A partir dessa análise, podemos “conceber o sujeito de conhecimento - e, por extensão, o educando no processo de aprendizagem – como um ser ativo, cujo intelecto tende aos objetos de conhecimento” (VASCONCELOS, 2011, p. 137).

O existencialismo (Martin Heidegger) busca desenvolver uma análise fenomenológica a partir da consideração atenta do ser humano em sua condição existencial ultima, isto é, como ser para a morte. Com base na idéias heideggerianas, o filósofo Jean- Paul Sartre define de forma mais nítida os contornos da filosofia existencialista. Para ele, a existência precede a existência, o que equivale dizer que o ser humano esta constantemente fazendo a si mesmo por meio de suas escolhas. Em oposição á tese existencialista, encontramos o estruturalismo, que tende á minimização ou mesmo á negação dessa mesma liberdade. Para Lev - Strauss, o pensamento humano é determinado por estruturas inconscientes. Para o filósofo Foucault, o próprio sujeito é um efeito do discurso. [...] A educação é vista em função das práticas sociais que a constituem, como a hierarquização, as relações de poder, o esquadrinhamento do espaço e a produção de indivíduos politicamente dóceis e economicamente úteis. (VASCONCELOS, 2011, p.137-138).

     O pragmatismo parte do pressuposto que não é possível um fundamento absoluto da verdade, uma vez que nossos juízos se encontrariam comprometidos com nossos valores, crenças etc. O autor pragmatista mais importante na filosofia da educação é John Dewey, pois afirma que “a sala de aula deveria tornar-se uma comunidade de investigação científica, e o papel do professor não deveria ser o de lançar fórmulas prontas a serem decoradas, mas sim o de propor problemas a serem resolvidos pelos alunos” (VASCONCELOS, 2011, p. 163).
    Paralelamente ao pragmatismo a filosofia analítica postulava o desenvolvimento da linguagem do cotidiano. Pensava a questão do ensino como busca da verdade individual para além da dominação.
    Frente a tudo que foi posto percebo que o estudo dos fundamentos filosóficos é extremamente significativo para a compreensão da pratica docente, uma vez que possibilita a compreensão da existência humana e das principais correntes filosóficas da educação. Entendemos que ao estudarmos os fundamentos filosóficos não encontraremos respostas prontas para todas as questões educacionais, mas nos permitirá aguçar o pensamento e nos ajudar, assim, a nortear a ação pedagógica de forma mais lógica, criativa, eficiente e segura.

Referências:

VASCONCELOS, Jose Antônio. Fundamentos Filosóficos da educação. Curitiba:
IBPEX, 2011.

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