12 de dez de 2012

A avaliação e a formação docente na Educação Infantil


A Educação Infantil historicamente tem sido concebida como um espaço de cuidado com caráter meramente assistencialista. Porém novas concepções de infância vieram para desconstruir esse conceito. Pois a criança passou a ser concebida como sujeito ativo do processo educativo, construtora e consumidora de cultura. Nesse novo contexto educativo foi imprescindível a elaboração de componentes avaliativos com o objetivo de acompanhar o desenvolvimento e a aprendizagem da criança, visto que esse processo ocorre de forma diferente das crianças maiores. Na educação infantil a avaliação ocorre através do portfólio e do registro diário.
Assim, segundo LDB (9.394/96) no art. 29, “a educação infantil tem por finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade” (BOTH, 2011, p. 173).
Ainda segundo a LDB (9.394/96) citada por Both (2011, p. 173): “o art. 31 estabelece que a avaliação deve ser feita mediante acompanhamento e registro do seu desenvolvimento, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao ensino Fundamental”.
Na avaliação de uma criança, deve constar a trajetória de suas descobertas e aprendizados, seus crescimentos e suas dificuldades, sempre se referindo a como a criança foi no passado e como está no presente momento.
Cabe ao educador, um olhar atento e reflexivo sobre o desenvolvimento de cada um dos seus alunos,
perceber cada criança na sua individualidade, com suas limitações e suas habilidades, dando ênfase a suas qualidades e ao seu crescimento durante o decorrer do ano.

A forma mais correta de avaliar na educação infantil é o parecer descritivo ou o portfólio individual do aluno. Para o aluno a avaliação é apenas um modo de conhecê-lo melhor, suas habilidades e suas deficiências, para o educador ela deve ser uma forma de percepção de sua prática e deve apontar modos de aprimorá-la, ao avaliar não devemos nos deter nesta ou naquela área, mas em todas as competências dos nossos pequenos. JAMAIS, NUNCA, EM MOMENTO ALGUM, o aluno pode ter suas habilidades comparadas ou julgadas, cada criança serve de parâmetro para si mesma e jamais pode ser comparada com outra, mesmo que da mesma faixa etária.

[...]

 Para conseguir realizar de forma satisfatória esta avaliação, é preciso manter um caderno ANEDOTÁRIO, onde cada criança terá seu espaço, para que o professor possa DIARIAMENTE (ou sempre que possível), relatar acontecimentos pertinentes ao amadurecer de cada um. Desse modo existe a necessidade de se observar os seguintes itens durante os registros para posterior montagem do portfólio:



Novidade; Participação; Interação; Autonomia
Preferências; Colaboração; Característica; Como se comporta nas atividades; Como se relaciona com colegas/educadora; No que se destaca (no pátio, na dança, nas atividades matemáticas, atividades de linguagem, nas atividades artísticas ou musicais etc.).

Como a criança chega à escola? Como se adapta ao ambiente e se alimenta? Como brinca e se move? Como se relaciona e se comunica? Atende as solicitações da educadora? O que faz quando contrariado? Reconhece os colegas, os identifica? Se identifica pelo nome, sua imagem no espelho? Tem capacidade de resolver conflitos e tomar iniciativas? É crítica e criativa? Curiosa e inventiva? É participativa e cooperativa?


Fonte: SOARES, 2012, p. 01.



Para focar o olhar em como se avalia, sugere-se atenção aos pontos abaixo elencados por Santos (2012, p. 1): 


Análises e discussões periódicas sobre o trabalho pedagógico. Estas ações são realizadas nos encontros periódicos. Elas fornecem elementos importantes para a elaboração e reelaboração do planejamento. Igualmente importante é dar voz à criança. Nesse sentido, a prática de avaliar coletivamente o dia-a-dia escolar, segundo o olhar infantil, traz contribuições fundamentais e surpreendentes para o adulto educador, ao mesmo tempo em que sedimenta a crença na concepção de criança cidadã.

[...]

Observações e registros sistemáticos das ações desenvolvidas na sala. Os registros podem ser feitos no caderno de planejamento, onde cada professor/ recreador registra acontecimentos novos, conquistas e/ou mudanças de seu grupo e de determinadas crianças; dados e situações significativos acerca do trabalho realizado e interpretações sobre as próprias atitudes e sentimentos.  É real que, no dia-a-dia, o professor/ recreador não consiga registrar informações sobre todas as crianças do seu grupo, mas é possível que venha a privilegiar três ou quatro crianças de cada vez e, assim, ao final do período, terá observado e feito registro sobre todas as crianças. 

[...]

Utilização de diversos instrumentos de registro. Para darmos espaço à variada expressão infantil, podem-se utilizados como instrumentos de registro de desenvolvimento arquivos contendo planos e materiais referentes aos temas trabalhados, relatórios das crianças e portfólios. 

[...]

O professor/recreador deve organizar um dossiê de cada criança, guardando aí seus materiais mais significativos e capazes de exemplificar seu 
desenvolvimento. Também durante a vivência de um projeto de trabalho, cada grupo deve ter como meta a produção de um ou mais materiais que organize o conhecimento constituído acerca do assunto explorado. Assim sendo, o arquivo de temas é o dossiê do projeto realizado pelos grupos de uma mesma instituição.

Um instrumento formalizado da avaliação na educação infantil é o portfólio onde ficam registradas todas as etapas de desenvolvimento e aprendizagem da criança por meio de registros, produções das crianças e imagens (fotos das atividades). Esse instrumento é entregue aos pais no final de cada semestre. O relatório diário também é de suma importância, pois nele são registrados todos os processos desenvolvidos com a criança e como foram aceitas por elas.

Nessa perspectiva, os relatórios descritivos são a melhor forma de organizar dados referentes ao desenvolvimento das crianças nas creches e pré-escolas. O professor consciente, preparado, não vê o relatório como um formato trabalhoso de avaliar, mas como um instrumento de suporte para a especificidade do exercício de sua profissão. É uma forma de se autoavaliar, refletir sobre as estratégias utilizadas, identificando com responsabilidade o que funciona e o que pode ser modificado.

[...]

Mas para que o relatório seja eficiente, é necessário dispor de tempo para fazer pequenas anotações diárias, sobre o comportamento, a participação, o envolvimento, o equilíbrio psicológico, dentre outros, de cada aluno durante as aulas. O professor não precisa anotar tudo, pois assim teria muito trabalho, mas anotar as informações mais relevantes, atitudes da criança que mais chamaram a atenção naquele dia, em determinado momento.

[...]

 Ao final do bimestre terá juntado as mais preciosas informações sobre cada aluno, o que lhe trará a segurança para redigir os relatórios. Através do relatório o professor demonstra o quão trabalhosa é a sua lida com as crianças, em razão dos detalhes que são citados no mesmo – no dia tal, a aluna ajudou o colega a vestir a blusa, já apresenta uma coordenação motora desenvolvida, pois conseguiu passar os fios do alinhavo corretamente. Com isso, os pais vão tendo noção das atividades desenvolvidas, bem como percebendo a importância de cada uma delas para o desenvolvimento da criança, seja motor, cognitivo, afetivo ou social (BARROS, p.1).


A formação do professor para atuar na educação infantil e, obviamente, avaliar o desenvolvimento dessas crianças também foi motivo de debates entre muitos teóricos . Após muito debate e pesquisa elegi a definição do RCNEI:

O trabalho com crianças pequenas exige que o educador tenha uma competência polivalente. Ser polivalente significa que o educador cabe trabalhar com conteúdos de naturezas diversas que abrangem desde cuidados básicos essenciais até conhecimentos específicos provenientes das diversas áreas do conhecimento. Este caráter polivalente demanda, por sua vez, uma formação, bastante ampla e profissional que deve tornar-se, ele também um aprendiz refletindo constantemente sobre sua prática, debatendo com seus pares, dialogando com as famílias e comunidades e buscando informações necessárias para o trabalho que desenvolve. São instrumentos essenciais para a reflexão sobre a prática direta com as crianças a observação, o registro, o planejamento e a avaliação. (BRASIL, 1998, p. 41).

A LDB (9.394/94) citada por Forest (2012) dispõe, no título VI art. 62: A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á “em nível superior, em curso de licenciaturas, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação admitida, como formação mínima para o magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade normal”.
Nessa perspectiva, torna-se necessário que os profissionais, nas instituições de educação infantil, venham a ter uma formação sólida, que propicie o desenvolvimento de habilidades e conhecimentos teórico-práticos essenciais para a sua ação educativa. Portanto, “o diálogo, no interior da categoria, tanto quanto os investimentos na carreira e formação do profissional pelas instituições de ensino, é atualmente, desafio presente, com vista à profissionalização do educador de educação infantil” (FOREST, 2012, p. 6).
A formação do professor infantil precisa estar inserida na concepção de educação infantil, baseada em seus pressupostos educativos. Deve buscar a superação da dicotomia educação/assistência, levando em conta o duplo objetivo da educação infantil de cuidar e educar.
Pois o professor de educação infantil é aquele que “ensina que deve possuir competência (que supere a improvisação, o amadorismo e a mediocridade), tenha precisão, rigor filosófico e disciplina metodológica, criatividade na forma de entender e trabalhar o conhecimento conforme o contexto em que foi produzido”. (ACRE, 2001, p. 181). É aquele que acolhe a todas as crianças sem distinção. É aquele que dá amor, e que a ajuda a crescer continuamente. E avalia segundo o desenvolvimento e a capacidade de cada criança e não apenas atribuindo conceitos e notas.

No entanto, é importante analisar essa formação à luz da contribuição do Xº Encontro Nacional da ANFOPE (2000) onde foram estabelecidos alguns princípios que devem se constituir como a base comum nacional, para a formação docente, que podem ser, assim, sintetizados:

• Sólida Formação Teórica e Interdisciplinar sobre o Fenômeno Educacional – compreensão histórica dos acontecimentos sociopolíticos, em consonância com o domínio de conteúdos ensinados pela escola, dentro de uma visão crítica.
• Unidade entre Teoria e Prática – interlocução essa que deve ser assegurada durante todo o curso, através da reformulação de estágios que devem se constituir como práxis educativa.
• Gestão democrática como instrumento de luta contra a gestão autoritária, para poder superar essa postura e poder vivenciar a participação efetiva no campo de uma gestão democrática e transparente, que envolva a comunidade escolar.
• Compromisso Social do Profissional da Educação – compreensão das lutas e conquistas históricas dos professores que têm, como objetivo, a construção de uma sociedade politicamente e socialmente compromissada, com os objetivos e necessidades educacionais.
• Trabalho coletivo e Interdisciplinar – busca da instauração do trabalho integrado, entre o professor-aluno e entre os próprios professores, na ação e no pensamento, na perspectiva da parceria entre as disciplinas, para a construção de um projeto-curricular, que garanta a aprendizagem dos alunos.
• Formação inicial articulada à formação Continuada  assegurando solidez teórica-prática na formação inicial e o diálogo permanente entre o lócus  dessa formação e o mundo do trabalho.

Acredita-se que os professores da Educação Infantil precisam ser considerados, tendo em vista sua trajetória de formação e profissionalização. Esses profissionais precisam desenvolver competências que os tornem aptos ao trabalho com crianças pequenas, trabalho esse que dispensa o modismo e a mediocridade do assistencialismo.
O professor na educação infantil é o mediador e, portanto, deve desenvolver processos educativos condizentes com seu alunado. Na educação infantil esse processo se consolidaliza na articulação do cuidar e educar e nas propostas que envolvam os jogos e brincadeiras no desenvolvimento e na aprendizagem infantil, de forma que as atividades desenvolvidas sejam estimulantes, lúdicas e atrativas.


Referencias:


ASSOCIAÇÃO NACIONAL PELA FORMAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO. Documento Final. X Encontro Nacional. Brasília, 2000. 

ARCE, A.; MARTINS, L. M. (org.) Quem tem medo de ensinar na educação infantil? Em defesa do ato de ensinar. Campinas: Alínea, 2007.

BARROS, J. Educação Infantil e avaliação. Disponível em <http://educador.brasilescola.com/orientacoes/educacao-infantil-avaliacao.htm>. Acesso: Out/2012.


BOTHIvo José. Avaliação planejada, aprendizagem consentida. É ensinando que se avalia, é avaliando que se ensina. 2. ed. rev. E  ampl. Curitiba: IBPEX, 2011.

BRASIL. Referencial curricular para Educação infantil. V.1. Brasília: MEC/SEF, 1998.

_______. Lei de Diretrizes e Bases da Educação nº 9. 394 de 1996. Brasília: MEC, 1996.

FOREST. N. A. Cuidar e Educar: perspectivas para a prática pedagógica na educação infantil. Instituto Catarinense de Pós- Graduação, 2008. Artigo < http://www.sst.sc.gov.br/arquivos/eca20/seminario1/Cuidar_e_Educar_Icpg%5B1%5D.pdf>. Acessado: Ago, 2012.

SANTOS, Samuel. A avaliação na Educação Infantil passo a passo - Como avaliar na Educação infantil? Disponível em: http://espacoeducar-liza.blogspot.com.br/2012/07/avaliacao-na-educacao-infantil-passo.html.Acesso: Nov/2012.


SOARES, M. Avaliação na Educação Infantil. Disponível em: http://www.cantinhodaeducacaoinfantil.com.br/2008/02/avaliao-na-educao-infantil.html. Acessado em: dez/2012.

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